#07: O embrião da Natureza Karuna foi uma árvore morta
Dois anos: o que permanece vivo quando uma gigante tomba — e como isso deu origem ao que fazemos hoje
Neste dia 15 de janeiro, completamos 2 anos e queremos contar como tudo começou, ainda no chão da floresta.
Uma gigante cai
O embrião da Natureza Karuna foi uma árvore morta.
Não qualquer árvore, mas uma araucária monumental — uma das raras gigantes sobreviventes da espécie. Ela só entrou em nossas vidas quando caiu.
Em outubro de 2023, após uma sequência de tempestades intensas, tombou a araucária gigante de Cruz Machado, no sul do Paraná. Considerada um monumento vivo do município, a árvore atraía visitantes pelo porte e pela idade impressionante: segundo a prefeitura, tinha mais de 750 anos*. Uma existência capaz de atravessar séculos — e, ainda assim, vulnerável.
A notícia alcançou Julio Cesar Vedana poucos dias depois da queda. O impacto foi duplo: primeiro, descobrir que uma espécie tão familiar podia alcançar tamanha grandeza: viver vários séculos, ultrapassar 40 metros de altura e chegar a mais de dois metros de diâmetro. Ao mesmo tempo, receber a notícia do fim de uma gigante. O baque ficou ecoando.
Naquele período, Julio Cesar já tinha um terreno de 17 hectares adquirido em 2020, onde acompanhavam com fascínio o avanço da regeneração natural. Junto com Marina Wille, companheira e sócia em outros projetos, havia também o desejo de transformar a área em uma RPPN, e a pesquisa sobre reservas ambientais no Paraná fazia parte da rotina. Foi nesse contexto que a história da araucária de Cruz Machado surgiu.


Semanas depois, eles já tinham um plano para lidar com aquela perda. O que se traduziu como um convite inusitado para Amanda Arruda, jornalista que conheciam de projetos anteriores: escrever uma biografia — não de uma pessoa, mas de uma árvore.
Ler o tempo inscrito no tronco
A ideia havia sido inspirada por uma reportagem do The New York Times, que mostrava como dados históricos são armazenados em árvores centenárias, em seus anéis de crescimento. O caminho parecia claro: contar a história daquela araucária da mesma forma, lendo o tempo inscrito em seu tronco. Claro, mas não simples.
Para isso, seria necessário reunir especialistas capazes de interpretar os anéis de crescimento e traduzir as histórias contidas ali. O objetivo era produzir uma narrativa que contribuísse para uma consciência conservacionista sobre o bioma da Mata com Araucárias, revelando a importância, a raridade e o significado dessas árvores antigas. Quem sabe, ao compreender a vida de uma única gigante, mais pessoas se sentissem mobilizadas a protegê-las.



Foram articulados contatos com pesquisadores das universidades federais do Paraná e de Santa Catarina, com a prefeitura de Cruz Machado e com a proprietária da área onde a árvore vivia. A proposta foi bem recebida, e o projeto começou a tomar forma: a pesquisa científica se encontraria com a investigação jornalística para narrar a vida daquela araucária monumental.
Havia também uma dimensão menos visível, mas igualmente presente: a sensação de que aquela árvore morta ainda seguia em diálogo com o mundo. Talvez através do micélio associado às suas raízes, continuasse viva e tramando subterraneamente outras formas de existência — nem que fosse como história.
Quando o plano encontra seus limites
A articulação, no entanto, durou poucos meses. A proprietária da área deixou de responder, inviabilizando a coleta e a análise dos anéis do tronco. Além disso, surgiriam desafios técnicos importantes. Um deles era a dificuldade de datar a araucária com precisão, já que o tronco apresentava uma cavidade formada pelo apodrecimento interno da madeira — algo comum nas gigantes da espécie.
Quem explicou as complexidades em detalhes foi o engenheiro florestal e agrônomo Marcelo Scipioni, professor da UFSC e um dos principais pesquisadores de árvores gigantes do Brasil. Ele foi responsável por medir a araucária de Cruz Machado, que passou a figurar como a maior do Paraná, e esteve entre os primeiros a acolher a ideia de narrar a vida daquela árvore.
O que insiste em brotar
A biografia não aconteceu. Mas a conversa entre Julio, Marina e Amanda seguiu.
Viramos nós: uma equipe.
E foi nesse intervalo, entre o projeto interrompido e algo que insistia em brotar, que a Natureza Karuna tomou forma. Movida pela aspiração de criar condições para que outras grandes árvores pudessem se erguer e atravessar os séculos, enquanto buscávamos compreender o caminho prático a tomar.
A primeira frente pareceu óbvia: cuidar da terra. Já no primeiro ano, a área cresceu de 17 para 48 hectares, em Campo Largo-PR. À regeneração natural somaram-se parcerias para a restauração ecológica de áreas anteriormente ocupadas por pinus e lavouras.
Depois, a comunicação passou a cumprir o papel de espalhar sementes para além do território. Atualmente, milhares de pessoas acompanham a Natureza Karuna no Instagram, ampliando o alcance das histórias ambientais e reflexões ecológicas compartilhadas. Não por acaso, o conteúdo de maior repercussão — com mais de 900 mil visualizações — foi justamente aquele dedicado às araucárias gigantes, com base nas pesquisas do professor Scipioni.
[ ENTREVISTA ] Uma conversa com quem lê árvores antigas
Nesta publicação, foram quase 700 comentários. Aproveitamos o interesse e as perguntas que surgiram, para retomar o contato com Scipioni. Em seu trabalho de catalogação e pesquisa de árvores gigantes, ele já registrou mais de 50 araucárias multiseculares, no Sul do Brasil e em Minas Gerais — entre árvores vivas e mortas. O esforço contribui diretamente para a proteção desses raros indivíduos e produção de conhecimento científico sobre a espécie.
Conversamos longamente com ele e o resultado está disponível em texto no site da Natureza Karuna e em vídeo no YouTube.
Da biografia que não nasceu, ficou também a compreensão de que algumas histórias precisam mudar de forma para continuar existindo.
Para que outras gigantes possam se erguer
O projeto interrompido funcionou como uma espécie pioneira em solo degradado: viveu o tempo suficiente para nutrir o chão e permitir que outra planta surgisse.
A araucária de Cruz Machado foi clonada pela Embrapa Florestas e seguirá espalhando sua genética.
A Natureza Karuna segue também — cuidando de suas áreas e contando histórias que ajudem a sustentar o imaginário necessário para que, no futuro, essas terras possam ser chão de florestas biodiversas e abrigo para novas araucárias centenárias.
Abraços,
Equipe Natureza Karuna
naturezakaruna.com
@naturezakaruna
Regenerar a floresta, reflorestar a mente




Segue o link onde encontrar o livro. Também fiz uma breve resenha sobre um dos ensaios que aparece no livro, aqui mesmo no substack. Abraço
Que história mais linda!